22.6.17

Posso Voar;






Para Sandra Costa, a menina das asas.

Algumas vezes na vida, em muitas vezes nessa vida, devo confessar: crio asas e saio de mim. Faço isso num silêncio iluminado que poucos percebem, é verdade. Afinal, só uma sensibilidade plena é capaz de me notar verdadeiramente. 

Crio asas, sim. Saio de mim. Saio daqui. Saio de órbita. É preciso. Eu preciso. Não para fugir da vida, eu não arrego. Não eu. Mas para {me} devolver a leveza que a rotina {me} todos os dias, todas as manhãs, entende?

Às vezes a gente vira bicho.  Fica contaminado dessa sucessão: dormir, acordar, trabalhar, sair para comer ou beber nas sextas à noite, tentar existir sendo o que somos no sábado, lamentando o domingo véspera de segunda. É um ciclo cansativo. É um mar de esquecer o que realmente faz sentido.Criar asas não me faz anjo, mas me dá o poder de respirar nuvens quando bem quero.  E eu quero sempre: no meio da semana, na happy hour, na sala do trabalho ou numa viagem de carro.

Saio do CAOS.   
         
Aumento o volume da chuva, dos livros, da meditação.  Acostumei-me a voar. E não há quem me impeça. Comecei baixinho, de leve. Agora os voos são altos, gaivotas, galáxias. Fotografo coisas que jamais poderia contar. Aquele tipo de beleza que só cabe num segredo bem guardado, acredite.
Posso Voar. Não faço questão de esconder.  É o meu super poder.

Olhos nus jamais enxergarão.


*Foto: Acervo Pessoal de Sandra Costa

27.5.17

Respeite o que ele viveu antes de você.




Respeite o que o outro viveu antes de você.  Aquela relação intensa, aquele pé na bunda, aquele amor furado, aquela paixão de colégio, aquele casinho da padaria, aquelas. Naquelas condições.

Respeite. Foi antes de você.

Esse texto também é pra mim.

Respeite.

Ele não teria te olhado pra você, como Jack* olhou para Rose*, não fossem as pontes. Ele não teria. Ele não teria saído de casa numa quarta-feira tranquila e  te arriscado um sorriso, ele não teria te convidado para um sorvete, sequer para um café.  Ele não teria se esforçado para fazer as suas rosquinhas preferidas, com leite condensado, ele não teria escolhido “Sete Vidas” no cinema em pleno domingo, ele não teria insistido naquela música. Ele não teria te presenteado com os seus livros preferidos, ele não teria te dado o celular da moda, ele não teria mudado de operadora, ele não teria te levado no Arpoardor num dia de clima ameno. Ele não teria feito você se apaixonar por brócolis e por frango teriyaki. Ele não teria te levado ao altar. Ele não teria concordado em comprar aquela persiana cinza para a sala recém inaugurada.

Ele não teria te levado para conhecer o Outback, novo de Rio de Janeiro. E você jamais conheceria em quase “primeira mão”, aquelas famosas batatas fritas.Respeite o que o outro viveu antes de você: águas passadas, decepção curada, formador de caráter, ponte, digo ponte, mais uma vez.Há pontes que não levam a lugar nenhum, outras levam a um coração aberto, curado de outras dores, disposto, sem interferências e eminências de inconstâncias ou trilhos tortos.

Respeite o que o outro viveu antes de você.  O lugar que te cabe está acima. Ache sagrado todo esse ciclo, por que a verdade é que não há relação sem propósito, sejam as de um dia, um ano, uma noite, um mês, as que passaram e as que ficam.

Se você entende de propósitos saberá: ele só é seu, porque já foi de alguém antes.

Todos nós navegamos entre pontes até repousar.


*Imagem: Maud Chalard



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