. 8.12.17 .


Para Amelia dos Anjos

Somos a prova de que qualquer ligação pode romper as barreiras do tempo, da distância e da presença física. Sim, somos. Tão bom ter você na minha vida agora. Tão bom ter tido você na minha vida antes de tudo. De dia em dia, saindo da sua casa para minha, passando por uma rua e outra até chegarmos no colégio.

Lembra? Lembra dos pratinhos azuis no refeitório, da tia Zezé  e do macarrão com almôndega que nos rendeu uma briga, certa vez? Da educação física na quadra do Rosário, da nossa professora de outro mundo? Das nossas tentativas frustradas no handebol e naquela apresentação um tanto engraçada ao som de “What Is this Feeling”? Da nossa paixão (ainda nos dias de hoje) por Dirty Dancing, “She's Like the Wind” e seu Patrick Swayze? De sempre incluir o Flávio no grupo porque ele sabia desenhar? Da nossa loucura pelas figurinhas do Cybercops, da bateção de pernas atrás de prendas para a festa do colégio? Do correio do amor e das nossas brigas sem sentido? Do Nilo insistindo em catetos, hipotenusas e uma matemática que nunca quis nos abraçar (risos)?

Eu lembro. Lembro de tudo. Aliás, nunca esqueci nada de nós. A vida, as experiências nos afastaram um pouco. Mas eu sempre te via linda e sorridente nas fotos do meu feed. E sempre que te olhava, tinha a certeza de aquela grande amiga que eu tinha ainda morava em você.

Tanto tempo depois, voltamos a ser uma dupla. Decidi que esse tempo de dezembro, esse texto seria para você. E falamos de gratidão hoje. E falamos tanto, sempre. De agradecer, de apoiar, de colocar para fora o que angustia e faz mal. O tempo é bendito sim. É bom dizer isso a você. É bom nos sabermos guerreiras, resistentes, transparentes, firmes no propósito de vivermos o que vale a pena. É bom poder enxergar com os olhos de Lennon e Melissa um mundo que nos tornou ainda mais humanas. Ainda mais unidas. Ainda mais fortes.

Gosto desse horizonte que só a tua amizade me faz alcançar.

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. 17.11.17 .

Leia ao Som de Genesis,  Hold on my heart .

Uma das certezas de todo dia 07 de novembro é que a Aline, minha amiga de anos a fio, vai me ligar. Tem sido assim por muito tempo. Não que a amizade se resuma a isso, é claro que não. Nos lembramos o tempo todo, durante todo ano. Mas em novembro, mês que nossas almas nasceram, a sintonia sofre um leve realce. Acho que conexão é isso.

Outra certeza é que provavelmente eu, Guilherme e Lennon iremos ao Outback, um de nossos restaurantes preferidos, do outro lado da ponte. No Plaza de Niterói. Nós temos uma história com o centro da cidade, o shopping e aquela vista linda da Baía de Guanabara. É coisa nossa.

Outras certezas vão chegando a cada ano e me convidam para um café, no sofá da sala de casa. Ousadas que são. A maturidade arranca parte da ansiedade, das expectativas irreais e do espírito louco das aventuras. Não que eu não tope sair pelo mundo, conhecer lugares novos, ousar experiências incríveis, entendem?  Mas já não troco paz e calmaria por qualquer furor. É a certeza de me amar muito, para me deixar em qualquer lugar, em qualquer dor, em qualquer tipo de amor.

Uma certeza que sempre foi certeza é que nem tudo se resume a uma atitude, pessoa ou intenção.  As certezas costumam pairar em músicas, cheiros, instantes. Entre o tempo e outro tempo. Pode soar metafórico, mas é real.

Quando eu abraço uma certeza, cresço olhos, coração, imensidão. Costumo sair dos bastidores.
Se eu ainda tenho dúvidas?  –Sempre as terei –

Mas alguns dias são vestidos de afirmações e nos compõe lindamente.  Já amanhecemos sabendo por onde tocarão nossos pés e passearão nossos olhares. E embora sejam cenas que se repitam, sempre terão um ar de primeira vez, de redescoberta , de cômodo novo.


*Imagem

. 17.10.17 .



Leia ao Som de "O Pastor", Madredeus.

Quando eu estou com você coloco rios de intensidade para fora e para dentro, ao mesmo tempo. É uma troca de suor, de boca, de olhares e de força física. Há rendimento e paixão nos teus movimentos e nos meus.

É um esgotamento teu. Meu. É um cansaço que me dá a madrugada mais bonita. O corpo mais leve, o coração mais enfeitado que já vi.

Você me esgota. De céu em céu, de chuva em chuva, de avião em avião, sou tua.  Me esgoto de você e ninguém mais. Existem boatos de que a minha intensidade tatua teu nome nos meus pulsos, na minha face, barriga e quadris.


É o que dizem. É o que eu vivo.


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. 4.10.17 .


Leia ao som de Metallica-Enter Sandman

Este é um texto dedicado ao meu marido. Sim. Eu poderia citar aqui mais de mil coisas que ele fez por mim. Muito mais. Mas hoje é somente de uma que vou falar, ou melhor, escrever: rock and roll. Sim. Ele mesmo.

Nunca Fui uma pessoa do rock. No máximo umas roupas pretas, porque sempre achei elegante e nada mais. Nunca mesmo fui uma pessoa do rock. E ainda não sou. Mas a essa altura do campeonato não posso negar que ele faz parte de mim e da minha vida. Roqueiros para mim, sempre foram aqueles caras chatos, vestidos de preto, com cabelo emaranhados e blusas desbotadas.  Engraçado é que antes de você conhecer o rock de perto, o que você enxerga é bagunça e desordem.  Gente chata, associada ao Diabo e afins. Festivais então. Deus me livre desses roqueiros malucos!

Pois bem, não é bem assim. Vocês já devem imaginar.

Meu marido que sempre foi e sempre será rock and roll, não andava de preto todo tempo (apesar dessa ser a sua cor preferida), não tinha cabelos emaranhados e muito menos era desordeiro. Aliás, é bem organizado até. Mais do que eu em algumas coisas. É claro que em começo de namoro rola aquela troca,  alguns compartilhamentos, inclusive de gostos musicais. Eu, que nunca suportei escutar rock, estava ali, emprestando meu ouvido aquele som pesadão do Sepultura, conhecem? Pois é. Imaginem. Não suportava. Vocês entenderam?  Hoje sou uma super admiradora, inclusive do Andreas (guitarrista da banda), acho o Derrick um fofo, apesar da altura e da carapuça de homem mau. 

No meu primeiro (de muitos) Rock in Rio, eu descobri nos roqueiros, pessoas organizadas, complacentes e educadas. Ordem para entrar. Ordem para sair. E muito respeito nas rodas que surgiam na multidão. Aprendi a bater cabeça e achei o máximo.  Estar ali foi libertador. O Rock também cura. E não há exagero nisso. É um estilo, uma filosofia, um mundo à parte. Quando o palco acendeu e a introdução do show do Metallica começou, eu já me sentia parte daquilo. Daquele momento. Vi o meu marido vibrar e contemplar. Show impecável. Sintonia perfeita entre banda e público.  Um som sensacional que me arrepiava inteira.

Todas as minhas impressões erradas, todos os pré-conceitos, caíram todos. Todos. Eu disse todos.  E eu entendi que a gente não pode julgar sem conhecer, sem ouvir, sem sentir. Seja uma música, um estilo ou pessoas.

Eu virei uma mulher do rock? Acho que não. Porque ainda acho que essa predisposição nasce conosco, sabe? Mas acho sim, que virei uma simpatizante do rock. Ouvir Sepultura deixou de ser tortura. Admiro e admiro o Metallica e nem tenho palavras pra descrever a energia do James nos Shows. O homem é mandado.

Acho que o meu marido nem sabe, mas ele fez isso por mim. Ele achou um cantinho para o rock na minha vida. Não dá para competir com ele em matéria de discografia, mas hoje, eu posso conversar sobre o assunto. Eu posso emprestar o meu olhar admirado aos sons, bandas  e histórias relacionadas.

Rock and roll também é poesia. Não te contaram?





. 25.9.17 .



Tomei Paris pra mim há tempos. Desde quando descobri suas paisagens, histórias à beira do Rio Senna, desde que descobri sua fortaleza poética. Henry Miller, Anais Nin, Baudelaire e tantos outros. Em Paris, respira-se uma poesia perfumada, viva mil vezes. Eu nunca soube entender bem. Talvez seja porque é preciso estar lá, respirar por lá. E ainda assim, talvez eu só possa SENTIR.

Não me recordo do ponto alto da minha paixão, já que quando se fala em Paris, essa chama é permanente, já me rendeu textos, romances, cenários, tudo construído no que os olhos me trazem, no imaginário mesmo.

Qualquer dia, acordo lá. Anoiteço, adormeço, amanheço e vou degustar macarons. Alugo um A.P daqueles antigos, com janelas bem grandes e vista para a arte, monumentos, paisagens emocionais.
Não quero essa Paris luxuosa que encanta a muitos, para minha humilde inspiração de escritora já bastam os cafés, as livrarias, as feiras livres e as confeitarias coloridas. As histórias de amor impregnadas nas paredes, nos silêncios e até nas músicas.  Paris não me decepciona, nem em tempos de terrorismo. A gente baixa os olhos e pede: Deus proteja a poesia, proteja as pessoas.  A Cidade Luz não é só mais um lugar e eu, não sou a única apaixonada por ela, tenho certeza.

A viagem está nos planos, nas planilhas, na luta acirrada para sustento e lazer na mesma medida. O que me recompõe da frustração de não estar lá é saber que quando eu estiver sempre terei estado, entendem?

Aquela velha afirmação de que o pensamento nos MUDA de lugar.
Você duvida?
Sim, eu vou levar tudo e todos comigo: cachorro, marido, filho, moleskines. Vou concretizar ABSTRATOS. Essa coisa de sonho realizado, de cheguei onde queria de “Consegui!”. Eu espero viver lá. Um tempo, uns tempos, alguns meses que sejam.

Enquanto não, pego carona nos muitos filmes que a ilustram, que a traduzem.  Nos documentários, nos que a viajam, nos que a deixam por aqui.

Aos amigos, a promessa: enviarei postais, cartas em papéis locais, guardanapos de restaurantes e envelopes personalizados. A família: voltarei periodicamente e levarei um comigo para um tour regado à poesia, para um passeio de trem, sem dúvida. Aquele trem dos bancos marrons, dos diálogos encharcados de personagens problemáticos, aquele trem dos trilhos tortos, janelas límpidas.

Eu estarei lá. E pintarei a Paris que quiser.

*Texto publicado originalmente no site O Amor é Brega.



. 17.9.17 .



Liga. Manda carta. Bilhete. Telegrama. Pombo correio. Mensagem na garrafa. Manda o mar dentro de uma caixinha. Ofereça uma música. Liga pra rádio. Manda recado por um amigo. Chama. Saudade chama. Saudade não deixa fugir. Aluga um quarto. Reserva uma mesa. Atrasa o passo para reencontrar. Tome um trem.  Pegue um Uber. Atravesse mais rápido o sinal. Corte caminho. Elimine as desculpas. O medo. A estranheza.

Movimenta um dedo, um pé, as pernas, o mundo. Faz um 21. Faz um poema para cantar. Tome coragem, café, coca cola, não deixe a saudade dormir de novo sem procurar. Grita. Bem alto, atravesse a multidão, o oceano, o céu, os continentes até.

É saudade né?

Não deixa passar. Não deixa de registrar. Não deixe de encontrar. Não deixe de fazer saudade de novo.

Procura. Olha. Se abre. Fale mesmo que não seja ouvido, na cara, na presença física. Aviva. Reviva. Se não há nada que impeça, decole. Se há impedimentos, detone todos. Ocupa. Faça passeatas, movimentos, organizações sem fins lucrativos. Saudade é coisa bonita de administrar. É isso tudo que tantos usam para compor, cantar, para ter um motivo pra voltar. Eu sempre fui mais saudade que presença. E sempre usei saudade para andar, vestir ou calçar. É um trem que não pára.

É saudade?


Deixa que saibam. Volte. Deixa que voltem. Escancara num sorriso, num abraço, num bem querer.  Cala a espera e enfeita os olhos. Sorri de volta.