. 17.9.17 .



Liga. Manda carta. Bilhete. Telegrama. Pombo correio. Mensagem na garrafa. Manda o mar dentro de uma caixinha. Ofereça uma música. Liga pra rádio. Manda recado por um amigo. Chama. Saudade chama. Saudade não deixa fugir. Aluga um quarto. Reserva uma mesa. Atrasa o passo para reencontrar. Tome um trem.  Pegue um Uber. Atravesse mais rápido o sinal. Corte caminho. Elimine as desculpas. O medo. A estranheza.

Movimenta um dedo, um pé, as pernas, o mundo. Faz um 21. Faz um poema para cantar. Tome coragem, café, coca cola, não deixe a saudade dormir de novo sem procurar. Grita. Bem alto, atravesse a multidão, o oceano, o céu, os continentes até.

É saudade né?

Não deixa passar. Não deixa de registrar. Não deixe de encontrar. Não deixe de fazer saudade de novo.

Procura. Olha. Se abre. Fale mesmo que não seja ouvido, na cara, na presença física. Aviva. Reviva. Se não há nada que impeça, decole. Se há impedimentos, detone todos. Ocupa. Faça passeatas, movimentos, organizações sem fins lucrativos. Saudade é coisa bonita de administrar. É isso tudo que tantos usam para compor, cantar, para ter um motivo pra voltar. Eu sempre fui mais saudade que presença. E sempre usei saudade para andar, vestir ou calçar. É um trem que não pára.

É saudade?


Deixa que saibam. Volte. Deixa que voltem. Escancara num sorriso, num abraço, num bem querer.  Cala a espera e enfeita os olhos. Sorri de volta.


. 19.8.17 .




Me deu uma vontade louca de te ligar. E eu te liguei. Você ainda é a parte mais bonita de mim. E eu de você. Descobri isso nas duas primeiras palavras que trocamos ao telefone. Não há lembrança porque não há esquecimento. E nossas memórias se tocam todos os dias, eu tenho certeza.

Você ainda é a parte mais bonita de mim. Adele, chuva às seis da tarde, nublados impublicáveis, conversas longas e olhos encantados de uma beleza que ninguém pressupõe.

Quando deixamos de ser?
Ainda somos meu bem. Ainda somos. Ainda sim. Ainda permissão. Ainda o que não pode ser deixado, ainda o que jamais foi perdido. Conectividade, vontade e um círculo centro de vontades que apenas dois corpos no mundo reconhecem:  o seu e o meu.

Ninguém falou de passado.  Ninguém falou de arquivamento, ponto final.  Reticências nos seguem.

Você ainda. Ainda a parte mais bonita de mim.


*Imagem: Pinterest


. 22.6.17 .





Para Sandra Costa, a menina das asas.

Algumas vezes na vida, em muitas vezes nessa vida, devo confessar: crio asas e saio de mim. Faço isso num silêncio iluminado que poucos percebem, é verdade. Afinal, só uma sensibilidade plena é capaz de me notar verdadeiramente. 

Crio asas, sim. Saio de mim. Saio daqui. Saio de órbita. É preciso. Eu preciso. Não para fugir da vida, eu não arrego. Não eu. Mas para {me} devolver a leveza que a rotina {me} todos os dias, todas as manhãs, entende?

Às vezes a gente vira bicho.  Fica contaminado dessa sucessão: dormir, acordar, trabalhar, sair para comer ou beber nas sextas à noite, tentar existir sendo o que somos no sábado, lamentando o domingo véspera de segunda. É um ciclo cansativo. É um mar de esquecer o que realmente faz sentido.Criar asas não me faz anjo, mas me dá o poder de respirar nuvens quando bem quero.  E eu quero sempre: no meio da semana, na happy hour, na sala do trabalho ou numa viagem de carro.

Saio do CAOS.   
         
Aumento o volume da chuva, dos livros, da meditação.  Acostumei-me a voar. E não há quem me impeça. Comecei baixinho, de leve. Agora os voos são altos, gaivotas, galáxias. Fotografo coisas que jamais poderia contar. Aquele tipo de beleza que só cabe num segredo bem guardado, acredite.
Posso Voar. Não faço questão de esconder.  É o meu super poder.

Olhos nus jamais enxergarão.


*Foto: Acervo Pessoal de Sandra Costa

. 27.5.17 .



Respeite o que o outro viveu antes de você.  Aquela relação intensa, aquele pé na bunda, aquele amor furado, aquela paixão de colégio, aquele casinho da padaria, aquelas. Naquelas condições.

Respeite. Foi antes de você.

Esse texto também é pra mim.

Respeite.

Ele não teria te olhado pra você, como Jack* olhou para Rose*, não fossem as pontes. Ele não teria. Ele não teria saído de casa numa quarta-feira tranquila e  te arriscado um sorriso, ele não teria te convidado para um sorvete, sequer para um café.  Ele não teria se esforçado para fazer as suas rosquinhas preferidas, com leite condensado, ele não teria escolhido “Sete Vidas” no cinema em pleno domingo, ele não teria insistido naquela música. Ele não teria te presenteado com os seus livros preferidos, ele não teria te dado o celular da moda, ele não teria mudado de operadora, ele não teria te levado no Arpoardor num dia de clima ameno. Ele não teria feito você se apaixonar por brócolis e por frango teriyaki. Ele não teria te levado ao altar. Ele não teria concordado em comprar aquela persiana cinza para a sala recém inaugurada.

Ele não teria te levado para conhecer o Outback, novo de Rio de Janeiro. E você jamais conheceria em quase “primeira mão”, aquelas famosas batatas fritas.Respeite o que o outro viveu antes de você: águas passadas, decepção curada, formador de caráter, ponte, digo ponte, mais uma vez.Há pontes que não levam a lugar nenhum, outras levam a um coração aberto, curado de outras dores, disposto, sem interferências e eminências de inconstâncias ou trilhos tortos.

Respeite o que o outro viveu antes de você.  O lugar que te cabe está acima. Ache sagrado todo esse ciclo, por que a verdade é que não há relação sem propósito, sejam as de um dia, um ano, uma noite, um mês, as que passaram e as que ficam.

Se você entende de propósitos saberá: ele só é seu, porque já foi de alguém antes.

Todos nós navegamos entre pontes até repousar.


*Imagem: Maud Chalard



. 24.4.17 .


Coisa bonita é madrugada. Desde pequena, sou apaixonada por ela. Eu via no céu azul do quarto em Laranjeiras, uma constelação brilhante e atrativa. E ficava ali, por horas, juntando em minha mente toda a poesia existente dentro e fora dele. Sempre admirei madrugadas pela pureza e silêncio enfeitado de cafés, geladeiras assaltadas, letreiros brilhantes na estrada.

Coisa bonita é madrugada, mãe de todos os poetas, ofício branco pintado com bic azul, olhos arregalados no escuro, fones de ouvidos a todo vapor. Pertences e objetos repousantes no breu temporário.

Coisa bonita é madrugada. Acendedora de palavras.



*Imagem: Weheartit

. 19.4.17 .

Porque eu te quero, sou nuvem. Chuva fina que não cessa, roupa colada no corpo, olhos acesos de uma chama além do fogo possível. Sou eu e sou outras. A que toca, eterniza, toca a tarde inteira num disco 92, sem cansar.

Porque eu te quero, todos os poemas são possíveis e todas as casas do quarteirão são minhas. Todas as vistas, todas as janelas e todas as cortinas atendem ao nosso momento, como num espetáculo de estrelas dançantes, pulsantes, reais.

Porque eu te quero, toda a minha espera é bem vinda, é combustível, sede, mão que aperta a cintura e não deixa partir, paparazzi, saídas cercadas, cômodo de eternidades, permanência, loucura e desejo.

Porque eu te quero, Paris é na esquina, sorrisos são convites e lençóis, redes as quais me entrego. Porque eu te quero, poderes inimagináveis, galáxias, mundos, anéis de saturnos triplicados nos meus diários, cartas, rascunhos.

Porque eu te quero, sou madrugada.  Observo enquanto dormes, eternizo enquanto respiras, sou feito pólvora, antídoto, veneno, serpenteio vontades, acordo saudade, trapezista de tuas músicas.

Porque eu te quero, deixei de ser ímpar. Não perco memórias, histórias, guardiã da tua presença, eu sou. Duas. Lua e sol. Mar de estrangeirismos.

Porque eu te quero, deixei de coagular. Cara limpa, olhos fartos de querer. Deixei de economizar pele e gemido.


*Imagem: weheartit