26.11.16

o nome disso é saudade

26.11.16
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Por hoje e por aqui, só insônia e cigarros. Uma vitrola antiga tocando blues. Uma bebida quente, limpando minha garganta de saliva tua.

Por hoje e por aqui, aquela antiga janela bronze que mandei pintar de branco, um papel rabiscado com metade de uma carta e um tanto de amor guardado, resguardado na parte boa de nós.

Por hoje e por aqui, um respirar macho e fêmea, sol e lua extraordinária, aquela mala marrom cheia de cartas minhas, dilaceradas de amor.

Você sabe, eu não gosto de dizer eu te amo. Não acho que faça tanto sentindo quando a pele já transpira essa verdade noite e dia. Eu sei, a minha intensidade é destas que te causam um medo desgraçado.  Que você absorve os meus quase sorrisos ao te enxergar chegar. Que o meu ar de mulher segura te prende as pernas, os braços, os abraços. Seria tão mais fácil se fosse uma relação comum, não é? Sem essa constelação inteira a nossa volta, sem tantos sóis presos aos nossos encontros, sem tantas janelas brancas, sem o meu apartamento e sem sua mala marrom.

Por hoje e por aqui, só insônia e cigarros. Não terminei de escrever a tal carta, tirei o disco de blues da vitrola e achei melhor tocar o silêncio. A lua está clara lá fora, tem um casal lindo na rua de baixo e as folhas caem das árvores em movimentos quase poéticos.

Somos dois mesmo que você não esteja.

Por hoje e por aqui só saudade, insônia e cigarros.





21.11.16

dear life

21.11.16
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Não tem receita pronta, eu sei. Viver pode ser farto e vazio ao mesmo tempo. Há equilíbrio e tombos no mesmo caminho. O caminhar não pode parar. Seja amena com os temporais, deixe as nuvens mais azuis só por um tempo. Não abafe o som dos auto-falantes quando eles trouxerem notícias boas. Não arranque das caixas de música a nossa trilha sonora.

Deixe de amarelar os livros, mulher! Uma proteção plástica nunca mostrará a beleza que mora nas capas deles. Vista-se de proteção ao sair de casa, estão baleando almas bonitas por todo lugar. Alguns jardins estão deixando de florir. Estações do ano estão trocando de lugar. Temos frio no verão e calor no inverno. Folhas secas na primavera e pétalas coloridas no outono. Tudo culpa da desordem ambiental.

Seja menos dura com as nuvens. Deixe o tempo curar, como sempre foi. Multiplique os abraços de ursos, os olhares flamejantes, os artistas, os compositores, os que colorem a estadia na Terra. Prolongue o riso, transforme as lágrimas, construa casas bonitas, estilo americanas. Amplie o céu e acenda as estrelas.

Menos aviões e mais asas. As pessoas por aqui precisam sonhar mais.

Não tem receita pronta, eu sei. Viver é contar ou cantar.




*Imagem: Théo Gosselin
15.10.16

a carência é um trem desgovernado

15.10.16
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Vamos falar de carência. Vamos falar de aceitar qualquer amigo, qualquer amor, qualquer tempo que sobra, qualquer lasca de carinho, qualquer migalha de atenção. Vamos falar de carência.

É preciso?
Sim, é preciso.

Tenho visto muita gente se perder por aí. Guiados pela carência, viver um amor meia boca e achar que está num conto de fadas. Ter um amigo meio amigo e confiar seu mundo a ele. Viver um relacionamento destroçado e achar que tudo tá lindo. A carência faz isso com as pessoas. Enxergam beleza onde não há.  Na maioria das vezes, não há troca, não há alicerce e principalmente, nada importa. 

Não queira isso pra sua vida.

É claro que nada precisa ser perfeito pra dar certo, que nem sempre o que é planejado se cumpre, mas se existe por aí  alguma coisa sem troca, seja ela um amor, uma amizade, um projeto, ele é inválido, sem valor. Ele não te acrescenta. E se não te acrescenta, que diferença pode ter que te faça dispensar tempo, sentimento, energia, vibração, olhares preciosos?

Não vale a pena se não for RECÍPROCO.

Já percebeu que a reciprocidade tem um brilho diferente? As pessoas que a desfrutam são visivelmente mais bonitas. 

Não deixe seu céu virar uma peneira furada. Não tome a carência como bússola. Não desperdice coração.


*Imagem: Théo Gosselin
27.9.16

Soltei da tua mão

27.9.16
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Eu precisava soltar. Minha liberdade nunca coube no teu abraço. Meu riso solto, minhas fotos confessionais, minhas músicas escolhidas a dedo no celular. Não foi fácil te manter segredo, quando o que eu sentia queria sair pela boca, pelos olhares, pelo corpo, pelos corredores, pelas persianas do meu andar.

Minha arte sempre foi sofrer sorrindo, entende?

Você jamais saberá dos presentes que eu comprei e não entreguei, das mensagens que rascunhei no whatsapp e apaguei, sem me mostrar, realmente. No meio do furação eu te descobri mentira. E eu já sentia tanto, eu já sentia tudo. Eu já fazia planos pra nós.

Soltei  da tua mão, sabe?

Você já não é mais menino, precisa entender. Pegar tuas mentiras, tuas frases feitas, teus elogios e sair do meu alcance.Já me curei das dores mais fortes, já me limpei das lágrimas noturnas e vendo você: estou mais forte agora. Não quero mais você, não me quero quando ainda te quero, quero pôr um ponto onde as reticências moraram um dia.

Soltei da tua mão. Felizes para sempre nunca funcionaria pra nós. Soltei tua mão, desamor, atração, segundo plano. Saí desarmada, de cara lavada, com o coração tranquilo.Você não é o tipo de cara que me levaria para ver o mar numa segunda- feira. Você não é. Você não é o tipo de cara por quem eu juraria ¨na alegria ou na tristeza”, você não é o tipo de cara que me daria mil anos. Você não é.

Soltei da tua mão, sabe?

Por questão de amor próprio, integridade, dignidade. Para continuar conversando com as estrelas, para continuar vendo a lua sem mácula e o céu com nuvens claras. Para manter a verdade entre eu e a vida, para não desarrumar a minha existência com histórias borradas.


Soltei da tua mão. Sem medo.


21.9.16

Descabida

21.9.16
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Para Sandra Costa.


Quem tem alma que cabe jamais me interessou. Sou mandala de imprevistos, improváveis. Sou de possíveis. Não sei pisar em ovos. Minha melodia é livre e não cabe num único estilo musical.

Moço, eu tenho asas por dentro, sabe? Já percebeu que vira e mexe, estou voando, na tua frente?

Sou profunda e abrigo armários de mar, prontos para acalmar minha euforia dominical, se preciso. Troco esse carnaval tradicional por livros e dois dedos de vinho quase todo ano.  Minha pele tem pó de estrela e meu cabelo, estações.

Sou fotográfica.

Não troco sono tranquilo por amores desarrumados. Mas confesso, que às vezes, eles são os mais bonitos. Meu vigor anda de havaianas, senta no chão, medita em campo aberto, procura vinis no sábado a noite, acontece na contramão das ondas fortes, avassaladoras.

Sou desassossegada dentro de um vestido preto. Não gosto de brincos maiores do que minhas orelhas e sim, não sei varrer ansiedade para baixo do tapete. Vez por outra permito que a tristeza leve meu sorriso, pra variar a cara lavada de sempre.

Uma casa chamada intuição. É meu coração. Alarga, absorve, expulsa, canta, contém e compõe, me põe em cima e embaixo, que é para relembrar a existência.

Sobre doer nobremente, quem nunca?  

Sou carne e espírito, fiquem sabendo.





Erica de Paula - 2016

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