25.1.17

um filho muda tudo, sim.

25.1.17
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Eu sempre bati no peito dizendo que quando tivesse um filho, ele jamais mexeria no meu celular, nas minhas maquiagens ou nos meus livros. Até o Lennon nascer e reverter tudo. No inicio, relutei um pouco. Mas depois, pensei que diferença faria revirar um celular, uma necessaire ou os meus livros, se ele já revirou minha vida, meu corpo, minha rotina?

Ainda tenho grande paixão pelos meus pertences, confesso. Mas certas coisas deixam de ser sagradas quando um filho nasce. Elas não ocupam mais o posto das prioridades, das urgências, das emergências, entendem?

Urgência agora é ver a lágrima do Lennon dando lugar a um sorriso de canto a canto. É cantar com ele a música de abertura do desenho preferido dele, é ver o que ele absorve dos livros, o colorido e forma, a fórmula das palavras.

Eu ainda sou a Sra. Organização, mas abri exceções em nome da minha coluna, do meu humor e do meu amor de mãe. Já não junto brinquedos de dez em dez minutos e nem me preocupo tanto se o tapete colorido que deveria estar no quarto dele, está na sala. As visitas são aqueles velhos amigos que se tiverem filho, entenderão de imediato. E se não tiverem, entenderão um dia.

A afirmação "Um filho muda tudo." é verdadeira. E isso só está começando.


*Imagem
18.1.17

Somos Chuva

18.1.17
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Sabe a gente não pode ficar junto. Não mais. Tudo mudou dentro de mim. A trilha sonora, os anseios, os objetivos de consumo, os horizontes Eu reconstruí pontes. Ainda tenho por  ti, o mesmo afeto. Enfeitado de coisa boa e não mais de desejo. O desejo inflamou, pulsou enquanto pode, traçou linhas lindas, desconstruiu muitos quartos de hotéis. Mas se transformou noutra coisa, sabe?

Eu escuto as nossas músicas e sinto gratidão por ter vivido uma coisa tão intensa e tão verdadeira em tudo: telefonemas, cartas escritas à mão, encontros, desencontros e redescobertas.

Talvez ninguém entenda a dimensão do que fomos um para o outro. E do que sempre seremos, na verdade. Não é só o amor que desperta, entende?

Não podemos mais ficar juntos, longe disso ser uma tortura ou motivo para chorar: é uma afirmação que lava a alma com água cor de rosa: nós transcendemos a barreira do desgaste, do término, do fim trágico.

Nós sobrevivemos.
E um vive no outro sem que isso seja um peso ou uma página rasgada. Sem que isso seja uma noite preta ou nublada.

Somos outono, lembra?

Somos chuva.


*Imagem: Google
5.1.17

tomei coragem

5.1.17
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Tomei coragem. Entrei no carro, enfrentei a chuva, o vento e resolvi te procurar. A saudade está latejando faz tempo, sussurrando teu nome, pintando teus olhos no meu espelho. A saudade quebrou teus copos preferidos, queimou tuas roupas, rasgou teus bilhetes. Criou desordem por aqui.

Cansei de brigar com ela. Cansei. Cansei de mudar de faixa para não ouvir nossa música preferida, cansei de evitar aquela rua, aquela rodovia. Cansei desse esforço absurdo para camuflar o teu nome ainda pulsando na minha boca.

Tomei coragem, arranquei minhas roupas, me molhei de sereno e te abracei.

Que orgulho, que nada. O que pulsa aqui é grande e dar um único nome seria injusto. Não é amor, mas também é forte. Desce feito enxurrada na alameda.

Tomei coragem para dizer “Te quero perto”, “Não me deixa sozinha”, “Aquece minhas mãos”. Tomei coragem e me vesti daquela mulher absurda, que só você conheceu.  Tomei coragem e silenciei o mundo, aumentei a voz e repeti teu nome umas cem vezes.

Tomei coragem e foi recíproco: acendi teus olhares, teu carro, tua vida. Era só orgulho o que nos separava, veja só.

Tomei coragem.

Apagamos a chuva, molhamos as luzes, voltamos a ser casal.


*Imagem: Théo Gosselin

13.12.16

última gota

13.12.16
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Quando se fala em intensidade
Eu me lembro de uma música
De um tom de voz
De um lugar que é “O lugar”
Eu sinto meu corpo inteiro
Inteirar o ambiente
O vermelho
O mar
O céu querendo mudar

Quando se fala em intensidade
Minha pálpebra desobedece
Morte e vida sussurram teu nome
Todas as ventanias me viram roupas
Eu jamais fui plana
Eu jamais serei plena

A intensidade é curva

Por aqui acendo fogueiras
Quebro janelas

Quando se fala em intensidade
Quero outonar.


*Imagem: Théo Gosselin
26.11.16

o nome disso é saudade

26.11.16
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Por hoje e por aqui, só insônia e cigarros. Uma vitrola antiga tocando blues. Uma bebida quente, limpando minha garganta de saliva tua.

Por hoje e por aqui, aquela antiga janela bronze que mandei pintar de branco, um papel rabiscado com metade de uma carta e um tanto de amor guardado, resguardado na parte boa de nós.

Por hoje e por aqui, um respirar macho e fêmea, sol e lua extraordinária, aquela mala marrom cheia de cartas minhas, dilaceradas de amor.

Você sabe, eu não gosto de dizer eu te amo. Não acho que faça tanto sentindo quando a pele já transpira essa verdade noite e dia. Eu sei, a minha intensidade é destas que te causam um medo desgraçado.  Que você absorve os meus quase sorrisos ao te enxergar chegar. Que o meu ar de mulher segura te prende as pernas, os braços, os abraços. Seria tão mais fácil se fosse uma relação comum, não é? Sem essa constelação inteira a nossa volta, sem tantos sóis presos aos nossos encontros, sem tantas janelas brancas, sem o meu apartamento e sem sua mala marrom.

Por hoje e por aqui, só insônia e cigarros. Não terminei de escrever a tal carta, tirei o disco de blues da vitrola e achei melhor tocar o silêncio. A lua está clara lá fora, tem um casal lindo na rua de baixo e as folhas caem das árvores em movimentos quase poéticos.

Somos dois mesmo que você não esteja.

Por hoje e por aqui só saudade, insônia e cigarros.





Erica de Paula - 2016

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