15.3.17

trinta e três

15.3.17
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Para Guilherme de Paula.

Não está parecendo fim de verão. É só seu aniversário que bate à porta. Não tem frio, não tem chuva, mas sempre tem alguma coisa no ar: balões vermelhos e brancos na mesa da sala e dois sorrisos à tua espera, mesmo que tardando.

As coisas mais valiosas não cabem num embrulho de presente.


*Imagem: Weheartit
2.3.17

back to back*

2.3.17
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Cansei de ficar bêbada quando o motivo é você. Cansei. De beber para afogar desencontros, desencantos, para repor aquelas tuas blusas de manga longa no armário do quarto de hóspedes. De te afogar em banhos demorados na minha pós bebedeira.

Cansei de usar o álcool como inspiração para ligações demoradas, declarações escancaradas de amor, para sms e confissões com olhos e alma.

Cansei de precisar me entorpecer para te sentir inteiro, mas fundo, cansei desse absinto absurdo, dessa rede infinita de ausência e não ser, não poder.  Das mãos dadas que nunca existiram.

Cansei de ser escape.  Ficar escutando os teus desabafos e desacertos da fulana ou cicrana, de ser a amiga que transa ou a transa que sobra.

Cansei de tudo. De abraçar cerveja como se fosse consolo. De doer para sentir. De encher os ouvidos das minhas amigas de mancadas tuas. De arrumar desculpas para teus erros. De tentar acreditar que é só fase, só por um tempo, só dessa vez.

Nunca foi assim. Nunca será como eu quero.

Cansei de estar sempre disponível, acessível, a pronta entrega, com a mão no telefone e a cabeça embaralhada perguntando: Será que ele liga?

Ah, cansei, rapaz.

Demorei séculos, mas eu mesma me dei um pé na bunda pra acordar: dos porres, da falta de amor, da fé esmagada. Demorei mas resolvi me encontrar no espelho: pele limpa, rabo de cavalo perfeito, maquiagem retocada.

Onde é que liga a vida novamente?



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*Menção ao título da música da brilhante Amy Winehouse
*Imagem: Weheartit


21.2.17

casa de mãe

21.2.17
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Casa de mãe é aquele lugar que se assemelha ao colo de Deus. Vocês não acham? Não ousem discordar. Vai ter briga comigo. É um lugar seguro, um porto seguro. É mais seguro que o bunker de Hitler. Mais secreto que as passagens secretas de qualquer castelo da era medieval. Casa de mãe é como um suéter novo ou um abraço reconfortante multiplicado por mil. Lá, estamos guardados. Estamos resguardados da maldade e das chuvas torrenciais. É aquele lugar que você liga pra avisar que vai chegar tarde, mesmo depois de casada, curada, trintona. É aquela casa de nuvem de onde apreciamos melhor o céu. Onde tem o café mais saboroso e o feijão com gosto de afago.

Casa de mãe é um lugar legalizado pela natureza. Perdi as contas de quantos jardins já plantei lá em noites de angústias, de medo e de saudade. Casa de mãe é irmandade tecida a fios de afeto e sessão da tarde na TV.

Casa de mãe tem quarto antigo, vizinho antigo, rua conhecida, rabiscos velhos no portão. Tem aparato para qualquer dor de cabeça. Primeiros socorros para desilusão com amigos, com trabalho, parente, namorado.

Casa de mãe é permanente. Abrigo antibomba, lugar de coração.


*Imagem: Weheartit
25.1.17

um filho muda tudo, sim.

25.1.17
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Eu sempre bati no peito dizendo que quando tivesse um filho, ele jamais mexeria no meu celular, nas minhas maquiagens ou nos meus livros. Até o Lennon nascer e reverter tudo. No inicio, relutei um pouco. Mas depois, pensei que diferença faria revirar um celular, uma necessaire ou os meus livros, se ele já revirou minha vida, meu corpo, minha rotina?

Ainda tenho grande paixão pelos meus pertences, confesso. Mas certas coisas deixam de ser sagradas quando um filho nasce. Elas não ocupam mais o posto das prioridades, das urgências, das emergências, entendem?

Urgência agora é ver a lágrima do Lennon dando lugar a um sorriso de canto a canto. É cantar com ele a música de abertura do desenho preferido dele, é ver o que ele absorve dos livros, o colorido e forma, a fórmula das palavras.

Eu ainda sou a Sra. Organização, mas abri exceções em nome da minha coluna, do meu humor e do meu amor de mãe. Já não junto brinquedos de dez em dez minutos e nem me preocupo tanto se o tapete colorido que deveria estar no quarto dele, está na sala. As visitas são aqueles velhos amigos que se tiverem filho, entenderão de imediato. E se não tiverem, entenderão um dia.

A afirmação "Um filho muda tudo." é verdadeira. E isso só está começando.


*Imagem
18.1.17

Somos Chuva

18.1.17
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Sabe a gente não pode ficar junto. Não mais. Tudo mudou dentro de mim. A trilha sonora, os anseios, os objetivos de consumo, os horizontes Eu reconstruí pontes. Ainda tenho por  ti, o mesmo afeto. Enfeitado de coisa boa e não mais de desejo. O desejo inflamou, pulsou enquanto pode, traçou linhas lindas, desconstruiu muitos quartos de hotéis. Mas se transformou noutra coisa, sabe?

Eu escuto as nossas músicas e sinto gratidão por ter vivido uma coisa tão intensa e tão verdadeira em tudo: telefonemas, cartas escritas à mão, encontros, desencontros e redescobertas.

Talvez ninguém entenda a dimensão do que fomos um para o outro. E do que sempre seremos, na verdade. Não é só o amor que desperta, entende?

Não podemos mais ficar juntos, longe disso ser uma tortura ou motivo para chorar: é uma afirmação que lava a alma com água cor de rosa: nós transcendemos a barreira do desgaste, do término, do fim trágico.

Nós sobrevivemos.
E um vive no outro sem que isso seja um peso ou uma página rasgada. Sem que isso seja uma noite preta ou nublada.

Somos outono, lembra?

Somos chuva.


*Imagem: Google
Erica de Paula - 2016

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