Para Sandra Costa.


Quem tem alma que cabe jamais me interessou. Sou mandala de imprevistos, improváveis. Sou de possíveis. Não sei pisar em ovos. Minha melodia é livre e não cabe num único estilo musical.

Moço, eu tenho asas por dentro, sabe? Já percebeu que vira e mexe, estou voando, na tua frente?

Sou profunda e abrigo armários de mar, prontos para acalmar minha euforia dominical, se preciso. Troco esse carnaval tradicional por livros e dois dedos de vinho quase todo ano.  Minha pele tem pó de estrela e meu cabelo, estações.

Sou fotográfica.

Não troco sono tranquilo por amores desarrumados. Mas confesso, que às vezes, eles são os mais bonitos. Meu vigor anda de havaianas, senta no chão, medita em campo aberto, procura vinis no sábado a noite, acontece na contramão das ondas fortes, avassaladoras.

Sou desassossegada dentro de um vestido preto. Não gosto de brincos maiores do que minhas orelhas e sim, não sei varrer ansiedade para baixo do tapete. Vez por outra permito que a tristeza leve meu sorriso, pra variar a cara lavada de sempre.

Uma casa chamada intuição. É meu coração. Alarga, absorve, expulsa, canta, contém e compõe, me põe em cima e embaixo, que é para relembrar a existência.

Sobre doer nobremente, quem nunca?  

Sou carne e espírito, fiquem sabendo.







Você foi embora e eu fiquei aqui, remexendo os discos, os armários, as gavetas. Remoendo até deixar de doer. Se é que vai deixar. Eu poderia acender um cigarro, mas estou acendendo esperanças. Quem sabe assim, o breu clareia. Você se foi e eu fiquei aqui, renovando os vestidos, trocando o batom, apagando as fogueiras. Teus sapatos ainda estão no corredor perto da porta.

Desde que você se foi, não sou mais “jantar a dois”. Desaprendi  de arrumar a mesa. Reencontrei o espelho, aprendi cicatrizes. Mudei a música das noites de sábado e escondi nossos Dvds preferidos. É justo.  Justiça na separação é ir sem manchas, reconstruir.  Eu sei bem.  Sair de salto alto de uma relação é para poucas. A maioria digladia, aborrece, rasga o verbo, perde a razão.

Não quero amizade. Não é pra mim. Mas você ainda será lembrado como a referência afetiva mais forte e mais bela.

Não há mais apartamento, janelas brancas, porta-retratos. Entreguei as chaves na imobiliária esta manhã. Os próximos a ocuparem o imóvel sentirão cheiro de amor. É teu passo que segue. É meu passo que procura morada nova. No ar, no mar, nos passarinhos, nas asas.

Deixei teus sapatos na portaria.

 A dor dissolve. A memória permanece. Nenhum futuro funciona como uma borracha mágica, por melhor que seja. Tô indo ali, me reencontrar.  Vou precisar ir ao fundo do poço e nos arrancar de uma vez da atualidade. Pôr um passado na etiqueta sabe?

Arquivado, aprendizado, olho borrado, fim.

*Imagem: Théo Gosselin 



Inspirado no Filme "Seven Pounds"

E se não tivéssemos rompido?  E se feridos, tivéssemos insistido? E se tivéssemos mudado de par? De lugar? E se, aquele AP fosse nosso? E se, fossemos com nossas malas para SP? E se, você tivesse me interrompido e beijado? E se, minha síndrome de Linda Mulher tivesse ganhado? E se, a limousine fosse um barco? E se, a lágrima fosse o mar? Se você pudesse ficar às quartas-feiras? E se, de branco, naquele parque, fotografássemos abraço, contato,  corpo? E se, viajássemos interior, exterior, Paris? E se ao invés de Naldo, Nanna Caymmi?

E se ao invés de jeans, vestido? E se ao invés de “Alô”, “Eu te amo”? E se ao invés de “Eu te amo”, “A Pegada Forte?” E se não tivesse mar, você me daria um? E se eu não fosse adulta,  absoluta? E se eu só fosse você? E se tivéssemos a chance? E se eu tivesse um bebê? E se o jardim fosse meu? E se os meus olhos não fossem seus?  E se você acostumado a ganhar, perdesse?  E se, ao invés de volume, silêncio?

E se entre nós, sem segredos? E se, ao invés de paredes, céu pra morar? E se eu não te deixasse partir, se eu te prendesse aqui, no meu peito? E se a idade, ao invés de números, corações? E se ao invés de fogueira, lareira? E se renunciássemos ao incêndio? E se nos construíssemos dia a dia? E se ao invés de vermelho, of White? E se tivéssemos a chance? E se ao invés de reincidentes, iniciantes? E se começássemos tudo de novo? E se ao invés de moderno, retrô? E se ao invés de pandeiros, violinos? E se ao invés de cerejas, pizza? E se o pra sempre fosse ali, na esquina?

E se o sol acendesse às cinco da manhã? E se ao invés de telefonema, teus olhos? E se tivéssemos a chance?


Eu me lembro do dia em que te vi pela primeira vez, garota. Jeans e blusa branca, olhos brilhantes, corpo perfeito, presença acesa. Você nem me notou, não me olhou, não me sentiu. Mas fui ligeiro em me aproximar, em cumprimentar, em apresentar meus olhos, em te tocar sem as mãos, em registrar meu interesse em tua memória.

Era dia. E depois que você saiu, eu não pensei em outra coisa. Perdi a concentração, a distração. Bastava ausentar meu pensamento e lá estava eu contigo, caminhando em tardes de domingo, assistindo Drew Barrymore e Adam Sandler em “Como Se Fosse A Primeira Vez.” Era a minha primeira vez como menino. Quando te vi deixei de ser homem feito. Tremi alma e corpo.

Pense numa conexão física. Era você. Foi você naquele dia. Eu não sabia pensar. Eu só queria sentir. Nunca me quis tanto dentro de uma mulher. Nunca desejei tanto ser a vítima, o namorado, o bobo apaixonado, o amante, o acompanhante em festas de amigas.

Tinha que ser você dali em diante. A passagem por todas as outras me fez homem pra você, garota.
Estou fascinado pelo que podemos ser. Estou guardando todos os meus medos nos bolsos e dizendo: “Me leva pra dentro de você, para sempre”. Quero morar nos teus cabelos, no teu cheiro, na tua história.

Você é minha e nem sabe.  Mas que teus olhos me perceberam, eu sei que sim.  Sim para todas as tuas marcas e cicatrizes.  Sim para os pequenos detalhes que te compõe: brincos, pouca maquiagem, nenhum batom e perfume doce. Sim para tuas manias que nem conheço. Sim para o que virá depois de tudo.  Vou plantar paciência em cada canto do teu corpo. Vão nascer flores de tempo, sabia?

A minha oração para o universo é: “Obrigado por ter cuidado dela até aqui. Agora é a minha vez”.


*Imagem: Weheartit





Sempre que sou presenteada com momentos bons, abro a caixa da memória e os guardo lá. Isso foi uma coisa que aprendi com o tempo. Vou armazenando combustível, para quando aquele dia D chegar entende?

Todo mundo na vida, tem aqueles dias de desespero, de sem direção, sem norte. De não saber aonde ir, de não ter colo, de não querer saber de amigo, de esquecer como se faz um pé depois do outro, de não querer levantar da cama, pôr a cara na janela, se vestir e sair. Todo mundo tem.

Todo mundo pinta ansiedade vez em quando. Todo mundo conhece céu nublado, tempestades, poeira e esquecimento, ainda que proposital.Todo mundo tem o seu dia de “Quero ficar sozinho”, “Quero pensar na vida”, “Quero virar mar”. A gente reúne uma pilha de bons livros, chocolate quente, cortinas fechadas, filmes clichês e algumas músicas para rasgar a alma. A gente se tranca no quarto, no peito, nos olhos.

A gente se limpa de tudo.  E tudo fica claro. Claramente.

Abro a caixa da memória, o combustível da vida está lá. Respiro, renovo, silencio e flores nascem. Abro as cortinas, visto primaveras e vou caminhar.


*Imagem: Théo Gosselin