Você foi embora e eu fiquei aqui, remexendo os discos, os armários, as gavetas. Remoendo até deixar de doer. Se é que vai deixar. Eu poderia acender um cigarro, mas estou acendendo esperanças. Quem sabe assim, o breu clareia. Você se foi e eu fiquei aqui, renovando os vestidos, trocando o batom, apagando as fogueiras. Teus sapatos ainda estão no corredor perto da porta.

Desde que você se foi, não sou mais “jantar a dois”. Desaprendi  de arrumar a mesa. Reencontrei o espelho, aprendi cicatrizes. Mudei a música das noites de sábado e escondi nossos Dvds preferidos. É justo.  Justiça na separação é ir sem manchas, reconstruir.  Eu sei bem.  Sair de salto alto de uma relação é para poucas. A maioria digladia, aborrece, rasga o verbo, perde a razão.

Não quero amizade. Não é pra mim. Mas você ainda será lembrado como a referência afetiva mais forte e mais bela.

Não há mais apartamento, janelas brancas, porta-retratos. Entreguei as chaves na imobiliária esta manhã. Os próximos a ocuparem o imóvel sentirão cheiro de amor. É teu passo que segue. É meu passo que procura morada nova. No ar, no mar, nos passarinhos, nas asas.

Deixei teus sapatos na portaria.

 A dor dissolve. A memória permanece. Nenhum futuro funciona como uma borracha mágica, por melhor que seja. Tô indo ali, me reencontrar.  Vou precisar ir ao fundo do poço e nos arrancar de uma vez da atualidade. Pôr um passado na etiqueta sabe?

Arquivado, aprendizado, olho borrado, fim.

*Imagem: Théo Gosselin 



Inspirado no Filme "Seven Pounds"

E se não tivéssemos rompido?  E se feridos, tivéssemos insistido? E se tivéssemos mudado de par? De lugar? E se, aquele AP fosse nosso? E se, fossemos com nossas malas para SP? E se, você tivesse me interrompido e beijado? E se, minha síndrome de Linda Mulher tivesse ganhado? E se, a limousine fosse um barco? E se, a lágrima fosse o mar? Se você pudesse ficar às quartas-feiras? E se, de branco, naquele parque, fotografássemos abraço, contato,  corpo? E se, viajássemos interior, exterior, Paris? E se ao invés de Naldo, Nanna Caymmi?

E se ao invés de jeans, vestido? E se ao invés de “Alô”, “Eu te amo”? E se ao invés de “Eu te amo”, “A Pegada Forte?” E se não tivesse mar, você me daria um? E se eu não fosse adulta,  absoluta? E se eu só fosse você? E se tivéssemos a chance? E se eu tivesse um bebê? E se o jardim fosse meu? E se os meus olhos não fossem seus?  E se você acostumado a ganhar, perdesse?  E se, ao invés de volume, silêncio?

E se entre nós, sem segredos? E se, ao invés de paredes, céu pra morar? E se eu não te deixasse partir, se eu te prendesse aqui, no meu peito? E se a idade, ao invés de números, corações? E se ao invés de fogueira, lareira? E se renunciássemos ao incêndio? E se nos construíssemos dia a dia? E se ao invés de vermelho, of White? E se tivéssemos a chance? E se ao invés de reincidentes, iniciantes? E se começássemos tudo de novo? E se ao invés de moderno, retrô? E se ao invés de pandeiros, violinos? E se ao invés de cerejas, pizza? E se o pra sempre fosse ali, na esquina?

E se o sol acendesse às cinco da manhã? E se ao invés de telefonema, teus olhos? E se tivéssemos a chance?


Eu me lembro do dia em que te vi pela primeira vez, garota. Jeans e blusa branca, olhos brilhantes, corpo perfeito, presença acesa. Você nem me notou, não me olhou, não me sentiu. Mas fui ligeiro em me aproximar, em cumprimentar, em apresentar meus olhos, em te tocar sem as mãos, em registrar meu interesse em tua memória.

Era dia. E depois que você saiu, eu não pensei em outra coisa. Perdi a concentração, a distração. Bastava ausentar meu pensamento e lá estava eu contigo, caminhando em tardes de domingo, assistindo Drew Barrymore e Adam Sandler em “Como Se Fosse A Primeira Vez.” Era a minha primeira vez como menino. Quando te vi deixei de ser homem feito. Tremi alma e corpo.

Pense numa conexão física. Era você. Foi você naquele dia. Eu não sabia pensar. Eu só queria sentir. Nunca me quis tanto dentro de uma mulher. Nunca desejei tanto ser a vítima, o namorado, o bobo apaixonado, o amante, o acompanhante em festas de amigas.

Tinha que ser você dali em diante. A passagem por todas as outras me fez homem pra você, garota.
Estou fascinado pelo que podemos ser. Estou guardando todos os meus medos nos bolsos e dizendo: “Me leva pra dentro de você, para sempre”. Quero morar nos teus cabelos, no teu cheiro, na tua história.

Você é minha e nem sabe.  Mas que teus olhos me perceberam, eu sei que sim.  Sim para todas as tuas marcas e cicatrizes.  Sim para os pequenos detalhes que te compõe: brincos, pouca maquiagem, nenhum batom e perfume doce. Sim para tuas manias que nem conheço. Sim para o que virá depois de tudo.  Vou plantar paciência em cada canto do teu corpo. Vão nascer flores de tempo, sabia?

A minha oração para o universo é: “Obrigado por ter cuidado dela até aqui. Agora é a minha vez”.


*Imagem: Weheartit





Sempre que sou presenteada com momentos bons, abro a caixa da memória e os guardo lá. Isso foi uma coisa que aprendi com o tempo. Vou armazenando combustível, para quando aquele dia D chegar entende?

Todo mundo na vida, tem aqueles dias de desespero, de sem direção, sem norte. De não saber aonde ir, de não ter colo, de não querer saber de amigo, de esquecer como se faz um pé depois do outro, de não querer levantar da cama, pôr a cara na janela, se vestir e sair. Todo mundo tem.

Todo mundo pinta ansiedade vez em quando. Todo mundo conhece céu nublado, tempestades, poeira e esquecimento, ainda que proposital.Todo mundo tem o seu dia de “Quero ficar sozinho”, “Quero pensar na vida”, “Quero virar mar”. A gente reúne uma pilha de bons livros, chocolate quente, cortinas fechadas, filmes clichês e algumas músicas para rasgar a alma. A gente se tranca no quarto, no peito, nos olhos.

A gente se limpa de tudo.  E tudo fica claro. Claramente.

Abro a caixa da memória, o combustível da vida está lá. Respiro, renovo, silencio e flores nascem. Abro as cortinas, visto primaveras e vou caminhar.


*Imagem: Théo Gosselin




Que ao som da nossa música no celular, JB, Youtube, um filme clichê vem à mente. Submergindo memórias inapagáveis, conversas impagáveis naquele boteco da esquina. Eu queria que você soubesse que te sinto. Ainda te sinto todas as manhãs, como em papel cravado, apertado entre o feitiço e a quentura, efeito meu no teu corpo, bruxa boa que fui.

Eu queria que soubesse que retornei aos encontros nos dias de angústia, que lembro para não morrer ao mar, que teimo em procrastinar teus olhos outra vez, por proteção. Eu queria que me soubesse os mesmos jeans que te arrancavam a pele, o mesmo perfume que te trouxe pra perto, a mesma caligrafia, as mesmas viagens, a mesma entrega em sentir.

Eu queria mesmo que soubesse que ainda estou aqui, que ainda estamos juntos, que moramos num daqueles romances de Shakeaspeare, Romeu e Julieta das urgências, já ouviu falar?

Eu queria que você soubesse que ninguém te cala, que ninguém te fala e que só você me olhou bonito como em novela. Eu queria que soubessem que o que vivemos nítido, físico, real. Que deu sentido aos sentidos. Que acordou gigantes, acendeu estrelas.

Eu queria que você soubesse que me atenho ainda às reações aceleradas, pulsantes, profundas. Que me soubesse tua. Mesmo depois do tempo frio, dos ventos fortes, das tempestades.

Eu queria que me soubesse presa em teus olhos, válvula, escape, curva, batida, veneno e cura, bonita, despenteada, espalhada em roupas pelo chão.

Eu queria que me soubesse tua ainda. Nada mais.


*Imagem: Théo Gosselin