Eu não sinto saudade de você, mas de sentir que não tinha sentidos, de abrigar as colisões de corpo, de transportar paixão em várias línguas, de mudar de país a cada cinco segundos, de deter a chuva dentro do teu carro, de hipnotizar os teus olhos, de te enfurecer e te amolecer, como se eu fosse uma bruxa boa.

Eu não sinto saudade de você, mas dos aniversários, do mês de maio, da caminhada matinal atenta, sob teu olhar. Das telhas de plástico transparentes, do vermelho, do azul marinho e do branco, dos enigmas, de tudo que não era de vidro, das erupções que nunca soubemos conter.

Eu não sinto saudade de você, mas daquela que era eu: nua de sol a sol, cabelos ombro abaixo, curva na cintura, cílios bêbados de rímel, das borboletas no estômago. Dos papéis coloridos ao meio dia, dos que tentaram nos separar e não conseguiram, do relógio parado  a nosso dispor.

Eu não sinto falta do encontro, mas do espaço entre eles, entende?

Os olhos guardados pra você, o desejo pro teu corpo e as verdades para os teus ouvidos, das flores noturnas, dos jardins expandidos no cimento, do som dos teus passos, das minhas memórias ilustradas portão adentro, de estarmos offline e online simultaneamente, do meu salto quinze nos teus sentidos, de definharmos em bocas alheias e crescermos imensos em nossa intensidade.

Eu não sinto falta de você. Não sinto.
Pensando bem, Sinto sim.

Colidir com você sempre me salvará de mim.



*Imagem: Weheartit