24.8.16

Desde que você se foi



Você foi embora e eu fiquei aqui, remexendo os discos, os armários, as gavetas. Remoendo até deixar de doer. Se é que vai deixar. Eu poderia acender um cigarro, mas estou acendendo esperanças. Quem sabe assim, o breu clareia. Você se foi e eu fiquei aqui, renovando os vestidos, trocando o batom, apagando as fogueiras. Teus sapatos ainda estão no corredor perto da porta.

Desde que você se foi, não sou mais “jantar a dois”. Desaprendi  de arrumar a mesa. Reencontrei o espelho, aprendi cicatrizes. Mudei a música das noites de sábado e escondi nossos Dvds preferidos. É justo.  Justiça na separação é ir sem manchas, reconstruir.  Eu sei bem.  Sair de salto alto de uma relação é para poucas. A maioria digladia, aborrece, rasga o verbo, perde a razão.

Não quero amizade. Não é pra mim. Mas você ainda será lembrado como a referência afetiva mais forte e mais bela.

Não há mais apartamento, janelas brancas, porta-retratos. Entreguei as chaves na imobiliária esta manhã. Os próximos a ocuparem o imóvel sentirão cheiro de amor. É teu passo que segue. É meu passo que procura morada nova. No ar, no mar, nos passarinhos, nas asas.

Deixei teus sapatos na portaria.

 A dor dissolve. A memória permanece. Nenhum futuro funciona como uma borracha mágica, por melhor que seja. Tô indo ali, me reencontrar.  Vou precisar ir ao fundo do poço e nos arrancar de uma vez da atualidade. Pôr um passado na etiqueta sabe?

Arquivado, aprendizado, olho borrado, fim.

*Imagem: Théo Gosselin 


Um comentário

  1. Ninguém descreve o pior lado melhor que você. Esse lado de quem não queria que fosse o que foi é dolorido, embora talvez a dor dissolva, afinal. Mas você transforma isso em poesia. Gosto demais. Queria que alguém me lesse seus textos para eu adormecer pensando.

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